
No dia 18 de agosto, uma comissão de artistas, vale ressaltar, um número pequeníssimo, esteve na quase nunca visitada por nós, Assembléia Legislativa. Para quê? Para darmos entrada ao processo que pede que a verba da cultura, hoje de 0,68% do orçamento do Estado, seja aumentada para 1,5%. Está certo, estes encontros são muitos chatos, mas tal ausência não justifica... Mas fora o nosso comportamento absenteísta, que é grave, fiquei chocado com um fato constatado ontem: os políticos se apropriaram do mandato como se esta posição fosse realmente deles e não uma função delegada pelos eleitores.
É sobre isto que eu quero falar:
Um político é um servidor público; o político é alguém escolhido pelo voto para representar os interesses da comunidade e contribuir para fazer a máquina pública funcionar com seu papel de legislador – simples, porém exato.
A máquina pública é o próprio Estado, com seus serviços destinados a população. Saúde, educação, saneamento etc., enfim, tudo que nos permite viver em comunidade - simples, porém exato.
Infelizmente, por uma distorção histórica, segundo alguns, não é assim que funciona. Ontem pude ouvir a seguinte frase ”esta casa é uma casa política” e, por isso, vocês têm que vir aqui, fazer visitas reivindicatórias senão as coisas não andam. Ora, então “por que concedemos o mandato a eles se, para atender nossas necessidades, ainda temos que fazer um périplo até os pés do caboclo senão coisa alguma acontece?”, perguntei-me, mas esta Assembléia não é uma casa para discutir os interesses da população, não é uma casa pública, que atende aos interesses do público?
A política existe para servir a população, e não o contrário – simples, porém exato.
Senhores o que esta acontecendo com o nosso país? Que inversão de valor é esta que faz com que o presidente do Senado decida não entregar o cargo, quando nós queremos que ele entregue?
Salvo raras exceções, é de assustar que alguns políticos se comportem como se eles fossem nossos patrões e não que nós sejamos os patrões deles – simples, porém exato.
O Brasil andou, a mentalidade do povo avançou, mas a mentalidade política continua na Idade Média; estes nossos representantes comportam-se como se estivessem em feudos, com uma idéia completamente distorcida de poder.
Poder!? Tem Gandhi, tem o Dai La Lama, tem Mãe Stela; isto a que eles se apegam é ego, vaidade, ilusão, tudo bem que sejam apegados, mas este apego não pode comprometer a sociedade. Falta maturidade emocional e espiritual aos nossos representantes legislativos. Se é que não é outra coisa.
Está na hora assumirmos a nossa condição de cidadãos fazendo uma varredura de todos os que mantêm este comportamento, pra mim imoral; se eles agem assim, pensem no reflexo desta atitude nos seus subordinados. É por isto que, muitas vezes, outros servidores públicos também se arvoram a ser donos de mesas, cadeiras, computadores, e quando precisamos dos serviços para os quais foram contratados e são regiamente pagos, nos tratam como se estivessem fazendo um favor. A propósito, este foi o comportamento de alguns dos nossos representantes legislativos ontem. Minha famosa intempestividade reagiu a isso, e como toda reação intempestiva, pareceu insano e suicida.
Lá na Assembleia, em meio dos nossos poucos representantes, havia uns jovens estudantes de teatro. Depois da minha reação intempestiva todos vieram falar comigo, pois na inocência de suas juventudes perceberam que minha indignação era verdadeira. Estou no limite como cidadão; fiquei me perguntando qual o legado que nós artistas estamos deixando para futuras gerações? Qual a contribuição? Graças a Deus antes de mim havia uma geração que construiu, transformou, conquistou; e nós, o que vamos deixar?
Reclamações, maledicência, ressentimento, inveja, omissão, aplausos para político de cinismos vitalícios, conivência para com o cálculo político que só visa à manutenção dos seus círculos de poder?
Está na hora da classe artística virar o que sempre foi historicamente. Participativa e crítica. Está na hora da gente pensar, construir, segurar com as mãos, as rédeas de nossa história.
Vamos acordar! Se continuarmos dormindo acabaremos despertando em meio a um incêndio de proporções irreversíveis. Esta na hora de darmos um basta a essa situação para que nossos filhos, nossos netos, nossos alunos, os filhos dos nossos alunos, carreguem como nós carregamos, pelo menos até certo ponto, a crença em um mundo melhor.
Os políticos têm que mudar de comportamento se quiserem continuar nos representando, têm que aprender a respeitar o cidadão, o bem coletivo e público, têm que pensar a máquina pública como uma empresa a serviço de todos, garantindo qualidade, serviços e perspectiva de vida as pessoas . A máquina pública não pertence a nenhum partido político, ela é de todos nós; chega da lógica politiqueira, chega de politicagem, chega de jogo, chega de cálculo, chega de ideologias ultrapassadas, corroída pela poeira do tempo, chega do mofo que sobe pelas paredes das ruas comprometendo os sonhos com o cheiro da podridão. Chega da podridão.
Saneamento político já.
Yulo Cézzar, agosto de 2009.
A verdade é que somos governados por uma grande quadrilha nacional de, absolutamente, todos os partidos. Como artistas e cidadãos, vivendo em um país democrático, é nosso dever nos posicionarmos. Por isso, classe teatral, vamos abrir a boca pra que nosso teatro volte a ter dias melhores.
ResponderExcluirYulo, li o seu protesto e quero dizer que quero lhe ajudar. Não sou artista, muito menos celebridade, mas concordo com o que você escreveu. E acho que devemos deixar algo bom para as novas gerações, pois as novas gerações de artistas só se preocupam com festas e dinheiro. Aquela frase "o artista vai aonde o povo estiver" deixou de ser um princípio dos nossos meios de comunicação e celebridades.
ResponderExcluir"Os fins justificam os meios"...?
ResponderExcluirAo dizer isso, Maquiavel não quis dizer que qualquer atitude é justificada dependendo do seu objetivo, e sim que: os fins determinam os meios. É de acordo com o seu objetivo que você vai traçar os seus planos de como atingi-los.
Para Maquiavel , um príncipe não deve medir esforços nem hesitar, mesmo que diante da crueldade ou da trapaça, se o que estiver em jogo for a integridade nacional e o bem do seu povo. Com ética e integridade.
A classe política, hoje, ao perder a ética, a moral, o caráter, perde o rumo e a decência. A ganância de poder,econômico inclusive, enlameia os princípios básicos da sociedade, dentre eles a compaixão: princípio básico da pressuposição da existência do outro.
O povo, hoje, somos apenas números manipulados em estatísticas politiqueiras, somos apenas os votos somados para a escalada do poder.
Engambelam, mentem, escondem e nós, tolinhos, nada. Não fazemos nada!
Fácil reclamar no boteco, na frente do aparelho de tv.
Cordeiros, nós. Até quando?!
Fica defícil acreditar que hoje algum político respeite e honre essa delegação que o povo lhe concedeu. Pelo menos aqui e agora não, não há quem mereça a nossa confiança. Sabemos que aqui a Cultura é superfluo, o orçamento ridículo, a gestão amadora e o gestor um bobo da corte. A classe artística está ameaçada de extinsão por conta de meia duzia de faconautas que decidiram saber como ninguém do que é que a Bahia precisa em termos de política cultural. Como é tempo de penúria cada um segura o que tem e estamos conversados. Pessoas de teatro e da dança se quixam com razão do processo de desaparecimento da face da terra de tudo o que não for Vila Velha ou simpatizante. Sinto muito apontar esses erros nos quais os colegas não têm culpa. Fica difícil fazer teatro, fica difícil fazer número, fica dificil paragar as contas, fica dificil confiar em partidos, em homens de paletó e em promessas para 2010. Recolhido à minha insignificância vou esperar passar esse Purgatório pois nada como um dia depois do outro!
ResponderExcluirS.
Adoraria ter ido...tentei até através de e-mails sensibilizar a classe (que nem sempre tá afim de ser sensibilizada politicamente). Mas não houve a mesma adesão que o 2 de julho. Outros compromissos foram aparecendo para o dia 18 e não deu para comparecer.
ResponderExcluirMuitos colegas sofrem da "síndrome do palco", infelizmente. Se estão no "palco" ou seja, trabalhando, esquecem as dificuldades que passam no dia a dia da profissão. Minha conclusão: Se for uma manifestação pelo coletivo, tô dentro. Caso contrário, tô fora! Não participo mais de situações que favoreçam apenas questões particulares ou casos isolados.
Cristiane Barreto
Arte-educadora e diretora teatral
Yullo,
ResponderExcluirMuito bacana sua constatação desse universo paralelo em que vivem nossos políticos. Universo paralelo porque vivem em outra realidade. Aprendi desde cedo, inclusive por conhecer outros mundos, que o principal objetivo da representação política é tornar digna a vida dos cidadãos. Proporcionar uma existência fuída, tranquila e desburocratizada. Em todos os aspectos, o cidadão é o beneficiário final das medidas tomadas por seus representates municipais, estaduais e federais. É assim que funciona nos países civilizados. Para se ter uma idéia, uma simples instalação de uma antena repetidora, na Suiça, seja em que cantão for, tem a anuência de toda a comunidade do lugar, que, via de regra, é convidada a opinar sobre a conveniência ou não da sua instalação. Lindo, não é? Mas, infelizmente, no Brasil não é assim. Pior, em nosso país os políticos se locupletam com nosso dinheiro e estão muito mais preocupados com sua "carreira" política. Tenho votado sistematicamente em políticos comprometidos com os interesses de nossa gente. Parafraseando Carlos Drummond, meu lema sempre foi: Vai, Urias, ser "gauche" na vida! Sempre estive à esquerda por encontrar em seu discurso um quê de mudança e sinais de uma mentalidade progressista. Chegamos ao poder. E o discurso? E a mentalidade? E as ações coletivas? E a mudança? E os progressistas? A constatação: O DISCURSO DA ESQUERDA É ÔCO. Nem a esquerda, nem a direita, nem o centro, nem a centro-esquerda, nem a centro-direita têem um projeto político para a Nação Brasileira. Até porque as ideologias desses grupos se esfarraparam. Vivem, como você mesmo afirmou, na Idade Média. Carrego um gosto amargo na garganta por me sentir ultrajado e traído. Desde a eleição de Waldir Pires, o Breve, como o denominou Gideon Rosa, que carrego essa sensação. Passei a olhá-los de soslaio. Desconfiado. E não sem razão: No poder, a esquerda tem se mostrado tão ou mais perversa que o regime dos senhores feudais de antanho. Não só copiaram os métodos da outrora direita como estão azeitando a máquina administrativa, politizando os cargos públicos com seus apaninguados de matiz ideológica desbotada, abastecendo áreas de gestão com gente desqualificada e incompentente, arruinando os projetos importantes e de interesse coletivo pelo simples fato de não terem sido eles, da esquerda, seus autores. Brilhante, não é? Seria cômico, se se tratasse de uma história de ficção. A sensação que fica é que nossos políticos tem DNA de degredado. São a escória, escrota, espúria. Uma ralé esclarecida (?) e esclerosada. Definitvamente, o Brasil cansa!
Meu avô, há 20 anos atrás, já dizia: a crise do Brasil não é política, é moral... Quanta sabedoria!! Ana Paula Prado
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