
Tenho a impressão de que já dissemos tudo e estamos nos tornando repetitivos, mas por que ninguém ouve? Bem, só se ouve o que se deseja ouvir. Escutar. Isso seria uma alternativa concreta para o fracasso do diálogo entre os artistas profissionais e o secretário de Cultura. De um lado ele diz que deseja dialogar, que tem feito reuniões, mas não ouve, parece que não leva a sério. De outro lado os artistas se predispõem, desde o primeiro momento de sua gestão, a dialogar. Desde o primeiro dia, porém, ele rejeitou o diálogo. Primeiro de modo abrupto e deseducado: sem respostas, apenas com o silêncio. Depois perseguindo toda a produção organizada destruindo cada um dos seus mecanismos sistematicamente. Hoje estamos na política da terra arrasada. Se tivesse nos deixado pelo menos esses mecanismos, certamente estaríamos calmos e ele não estaria metido nessa cama de varas. Não deixaria de fazer mediocridades, mas não teria tanta exposição negativa. Agora, dois anos e nove meses depois, o secretário alardeia que deseja dialogar, senta-se à mesa, gasta saliva, mas ninguém ouve ninguém. Ele tem o pensamento de que os artistas profissionais são inimigos do seu projeto, reage exatamente como alguns personagens de Machado de Assis movidos pela ideia fixa.
Ultimamente ele tem feito um périplo pelas emissoras de rádio – qual um político, sim porque agora ele se diz político. E sua intenção é desqualificar, menosprezar, espezinhar, dizer que só uns poucos estão descontentes e que a maioria absoluta está felicíssima. Certamente, sim, aquela maioria que é reunida como gado em hotéis caros e assinam documentos cujo conteúdo não participou da redação, mas tem o claro objetivo de dar legitimidade ao que não está funcionando. No rádio ele acusa os artistas de serem injustos com ele, acusa-nos de não compreendermos o conceito amplo de cultura. Essa afirmação é, no mínimo, uma provocação cínica, porque nos desqualifica. Os artistas existem em todos os matizes, os doutos, os intuitivos, os arrogantes, os talentosos, os não-talentosos etc., mas ignorantes os artistas, definitivamente, não são. Mas penso que por detrás de tudo isso tem um forte conteúdo ideológico engendrado por cururus retrógados, que resistem a flexibilizar seus conceitos.
Estou prestes a escrever um réquiem sobre uma mudança que andou para trás. Espero em deus possuir saúde mental e física para ter o prazer de, um dia, poder escrever sobre esse tremendo fracasso, esse estrondoso ruído que se estabeleceu entre os artistas profissionais e os novos gerenciadores da cultura. Meu coração está profundamente entristecido com o poder que a mentira e a manipulação também possuem entre as pessoas que se imiscuíram no meio da política cultural do governo Jaques Wagner. Como não sabem do que se trata a produção artística (porque não freqüentam, ignoram) não se fez uma política para o setor e, pior, desmanchou o pouco que havia. Na crise, querem criar algo às pressas, mas a desordem, o caos já está instalado. O que fazer? Nem Jesus Cristo descendo à Terra neste momento teria condição de reparar o mal que já foi feito em nome de coisas que também não se concretizaram, a exemplo da interiorização. E uma interiorização que nós tantos desejamos pelo simples fato de que ela significaria uma ampliação astronômica do nosso mercado de trabalho. Se realmente quisessem interiorizar teríamos feito um portentoso projeto de circulação e isso não teria custado mais do que já foi investido em seminários, conferências reuniões e outras bobagens de explícito papel eleitoreiro.
Mas infelizmente, se o grande mote é a interiorização, farei uma pergunta muito simples: onde está o que se produziu, que não se vê? Os centros de cultura e outros equipamentos do interior continuam lamentavelmente em péssimas condições e os grupos até agora só se mobilizaram para eventos (novamente essa atração fatal) que servem muito bem a política, tem inegável valor organizacional mas não movimentam a economia da cultura como a produção artística. A história será o juiz dessa malfadada experiência calcada na mentira da propaganda. Maldito Joseph Goebbels que consolidou essa arte de tanto bater numa mentira a ponto dela se transformar em verdade com defensores ferrenhos. Mas nesta história, se a discussão fosse séria, poderíamos tentar recuperar a estupidez de se criar um mecanismo de fomento para engolir outro. Em política cultural, os instrumentos são complementares porque cada um atende a um tipo de demanda e contempla um segmento. Mas o que está acontecendo é bem ao contrário. Criam-se mecanismos para absorver outros. O pior exemplo é a verba dos editais sair do Fundo de Cultura, antes ela vinha do orçamento geral da Secretaria. Ao sair do Fundo de Cultura cria uma série de impedimentos para os artistas em razão das regras do Fundo. Mas este é um tema para outro comentário. Enquanto isso continuaremos a ouvir nosso mais novo político discursar pelas emissoras de rádio. Quem lá entende a língua dos cururus? Ah, finalmente a razão do ruído: somos sapos que falamos outra língua.
Gideon Rosa, ator e jornalista
Essa gente desse governo medíocre não quer dialogo, a Secretaria de Cultura é o espelho do governo Wagner, um governo menor sem visão para educação e cultura. O atual Secretário não tem poder algum e mesmo se tivesse não manteria dialogo algum com artistas que não sejam aprovados e carimbados pelo sistema o qual ele é dedicado serviçal.
ResponderExcluirEm verdade trocamos seis por meia dúzia o PT no governo não difere do truculento DEM.
Pensar cultural e pensar gente, não orçamentos e verbas, essa gente de governo é viciada em verbas, em índices, não sabem o valor de ser gente, a desumanidade não pode falar de cultura material e imaterial....
Se você for esperar dessa gente algum tipo de dialogo, meus pêsames, eles só escutam o que for deles e para eles , o que podem tirar proveito. Só é feliz neste país quem faz parte de algum criminoso “ esquema” fora isso o teu texto já disse o que acontece
Li ontem tarde esse seu texto Gideon. Hoje pela manhã enquanto caminhava me lembrei dele e chorei. Chorei olhando para a Escola de Teatro pela sorte dos nossos pares que tanto perderam nesses meses Wagner/Meirelles. Maldade ou incompetência agora é tarde para saber pois o que foi feito foi muito contundente e desqualificou! Desqualificou a luta, o diálogo, os atores, os dançarinos, os profissionais da cena em geral... Será que eles não entendem? O que é que eles lucram com isso? Será que eles não duvidam nem um pouco deles mesmos? Que tara esconde essa fobia dos artistas?
ResponderExcluirLembra-se da queixas do governo anterior? Das esperanças com a chegada deste?
Nunca mais!
Gideon,
ResponderExcluirO nome do diálogo é eleição 2010.
Só isso!
Um abraço,
Rita Assemany
Gedeon querido,
ResponderExcluirAdorei seu comentário sobre a situação da cultura na Bahia e faço minha a tua questão: onde está o que se produziu e não se vê ?
E pergunto também: se tantos secretários desse governo, com estragos talvez menores, já tomaram outro rumo, porquê esse também não toma o seu ?
Parabéns e boa sorte pela continuação.
O sapo não lava o pé / não lava porque não quer...
ResponderExcluirViuvas do passado hehehehehehehe.
ResponderExcluir"O autor anônimo fica numa situação paradoxal: ele é um autor, como qualquer outro, mas não assume a autoria. Em troca, o seu discurso perde credibilidade e eficácia, mas tem como vantagem a questão pessoal (tal como o ataque pessoal que muitos usam para desacreditar idéias) e a deslegitimação pela autoria se vê destruída."
ResponderExcluir(José Braga · Brasília • DF · 7/10/2007)
Lamentável a situação crônica em que se encontra a produção cultural no ESTADO DA BAHIA. Não houve democratização nenhuma, isso é uma farsa. ESSES editais são apenas factóides para criar notícia, mais nada de concreto e eficaz acontece. A cultura perde seu sentido de existência por causa dessa visão mesquinha, pequena e egoísta, desse fascista chamado Márcio Meirelles.
ResponderExcluirQue venha 2010.