quinta-feira, 19 de novembro de 2009


Nos últimos três anos da despolítica cultural implementada pela Sepult, eu me pergunei ingenuamente: por que o governador Wagner aceita este desgaste? Retardado que sou, demorei para compreender a razão. Mas agora compreendi que é simples: ele encontrou no oportunista secretário de cultura, MM, alguém capaz de implementar as atabalhoadas ideias petistas para o setor. A principal delas, e mais nefasta – para a arte não para a política – é a utilização da cultura como instrumento de construção de currais eleitorais, uma prática antes condenada, mas agora novamente utilizada à larga. E MM gostou tanto do papel, que assumiu ares de César colocando seus desafetos, principalmente os que participaram do Cultura na UTI, numa lista negra, e ordenou de modo imperial: “A esses nem pão nem água”!.
Em três anos de despolítica, não houve coisa alguma além de reuniões – nas quais sempre há uma derrama do nosso minguado orçamento – e uma raquítica, senão insignificante, ação. O que foi feito neste período? Bem, a rigor, nada. Não existe um projeto de vulto, e não me venha falar do Museu Rodin, o ex-execrado, agora exaltado, que isso me dá frouxos de risos, pois cinismo assim jamais pensei ver. Tudo o que se viu nestes três anos foi uma destruição cavalar: trocando o nome dos lugares e dos projetos para não dar crédito aos antecessores. Mesquinhez, miudeza de espírito.

E esse espírito miúdo, pequeno, gerou uma lista negra de artistas, aqueles artistas que ousaram dizer o nome ao expressar o seu descontentamento. Certamente, agora, o primeiro nome da lista será Emanoel Araújo, antes deve ter sido João Ubaldo Ribeiro, ou eu próprio, mas não sou tão convencido assim, sei que sou persona non grata, mas jamais pensei que o rancor, o negrume do coração pudesse elaborar uma lista de desafetos com o único objetivo de perseguí-los. Pois, pasmem, MM construiu pacientemente uma lista de artistas que, enquanto ele estiver no poder, seus santos nomes estarão na fogueira, portanto, alijados dos seus projetos. Não adianta insistir.

Como venho dizendo, há alguma coisa na trajetória de MM (porque rima com ACM com quem ele se afinou tanto), que faz seu caráter nutrir um ódio mortal aos artistas. Ele próprio, que é um artista de certa estatura plástica, construiu por seus pares um olhar cuja visão parece estar sempre manchada por uma cortina de sangue saída de uma cena de ódio. Ele tem a capacidade de destruir tudo o que beneficiava aos artistas. Foi assim quando engendrou o projeto de reconstrução do TCA eliminando as 12 salas de ensaio, foi assim quando quis vender o TCA por R$ 30 milhões para construir um shopping center, foi assim quando destruiu a programação de animação do Pelô ( e quis mudar o nome para Centro Antigo, ui, ui), foi assim quando espatifou o Balé Teatro Castro Alves, quando pulverizou as verbas dos editais para implementar o plano da demagogia eleitoreira para os currais territoriais. Além disso, a pulverização trouxe o desmantelo de um sistema que já estava vetusto, mas agora caducou. Chegou-se ao requinte de, às portas de 2010, liberarem, finalmente, as verbas dos editais de 2008, e ainda em 2010, outros tantos de 2008 ainda não terão sido executados. Qual a razão de desmantelar um sistema tão simples de fomento à produção artística? Ódio, somente o ódio explica, nada mais.

Mas antes que eu me esqueça, quero lembrar a frase que a atriz Nilda Spencer mais gostava de dizer na peça Ensina-me a Viver (Collin Higgins), que fizemos juntos: “Isso também passará”.

Gideon Rosa, ator, jornalista.

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